Unidades produtivas de Cannabis Medicinal
Finca El Pongo, Jujuy, Argentina — 2022
Arquitetura
Talacasto, San Juan, Argentina — 2025
Em meio à paisagem mineral de San Juan, longe da cidade, da infraestrutura e de toda lógica convencional de habitar, esta casa se assenta sobre o território como um artefato autônomo. Não busca domesticar o deserto nem integrar-se de maneira mimética a ele. Busca resisti-lo, compreendê-lo e operar dentro de suas condições extremas.
Implantada sobre uma propriedade de 14 hectares, a residência emerge como uma peça escultórica de concreto bruto suspensa sobre a topografia. Um volume preciso, monolítico e silencioso que domina a paisagem árida a partir de uma posição elevada, gerando de longe a mesma inquietação que gera por dentro.
A arquitetura não aparece aqui como um objeto decorativo nem como um gesto formal arbitrário. A casa é uma infraestrutura de sobrevivência contemporânea. Um refúgio autônomo projetado para operar com independência das redes convencionais de água, energia e conectividade.
A residência faz parte de uma exploração conceitual mais ampla vinculada aos princípios de Autónoma: uma linha de pensamento arquitetônico que propõe repensar a moradia não a partir do conforto do sistema, mas a partir de seu possível colapso.
Nesse contexto, a casa se coloca como uma unidade resiliente. Capaz de operar de maneira independente. Capaz de permanecer fechada, protegida e autossuficiente. Capaz de resistir a condições adversas, sejam elas climáticas, energéticas ou sociais.
Aqui, o isolamento deixa de ser uma limitação para se tornar um valor arquitetônico.
A residência incorpora sistemas de captação e armazenamento de água da chuva mediante cisternas subterrâneas integradas à topografia natural do terreno. A implantação aproveita as pendentes para otimizar a captação e distribuição hídrica sem recorrer a bombeamento permanente.
A autonomia não se expressa apenas pelo tecnológico. Também aparece na materialidade, na lógica estrutural, na segurança e na maneira como a arquitetura se relaciona com seu entorno natural.
A casa se apresenta à paisagem como uma peça fechada, hermética e quase defensiva. As fachadas inferiores são opacas e massivas. As aberturas são mínimas, precisas e profundamente controladas.
A arquitetura recupera aqui uma ideia ancestral: a moradia como proteção.
No entanto, uma vez superado esse umbral, o interior se transforma radicalmente. A casa se abre para o horizonte distante, para o céu e para a imensidão da paisagem andina. A opacidade defensiva do exterior dá lugar a uma espacialidade interior ampla, luminosa e contemplativa.
A dualidade entre fechamento e abertura estrutura toda a obra.
A residência protege para baixo e se expande para cima. Fecha-se frente à proximidade imediata do terreno e se abre apenas quando a altura lhe permite dominar a paisagem a partir de uma posição segura.
A topografia abrupta não é um obstáculo, mas o principal recurso projetual. A casa se incrusta parcialmente no terreno e utiliza as pendentes naturais para se ocultar, ganhar inércia térmica e reduzir sua exposição frente aos ventos predominantes.
O deserto funciona simultaneamente como proteção, isolamento, reserva e vazio.
A arquitetura não tenta impor uma ordem artificial sobre a paisagem. Opera quase como uma extensão mineral da montanha. O concreto erodido, as sombras profundas e a geometria precisa constroem uma presença que parece ter emergido do próprio terreno.
À distância, a residência aparece mais como uma formação geológica ou uma infraestrutura técnica do que como uma casa convencional.
A organização espacial se desenvolve em dois níveis claramente diferenciados.
O pavimento inferior contém os espaços públicos principais: sala de estar, cozinha, sala de jantar e expansão para a varanda principal. O pavimento superior concentra os quartos, banheiros e áreas de contemplação direta da paisagem.
En los niveles superiores, las áreas privadas y los espacios de contemplación adquieren una condición más abierta. Un playroom, terrazas, piscina y un jardín elevado permiten experimentar el paisaje desde una posición de dominio visual absoluto, suspendidos sobre el vacío del desierto.
La casa alterna permanentemente entre compresión y expansión, oscuridad y luz, protección y exposición.
Formalmente, a residência retoma certos princípios do brutalismo, embora reinterpretados a partir de uma sensibilidade contemporânea e territorial.
O concreto aparente não aparece como uma decisão estética superficial, mas como consequência direta da busca de permanência, robustez e baixa manutenção. A geometria precisa e as sombras profundas geradas pelos balanços constroem uma plasticidade própria.
Cada operação formal responde simultaneamente a uma lógica espacial, climática e simbólica.
A casa não busca ser leve. Busca permanecer.
Esta obra coloca uma pergunta cada vez mais vigente: como habitaremos territórios remotos em um futuro marcado pela incerteza ambiental, energética e social?
A resposta não aparece aqui pela nostalgia nem pela tecnologia espetacular, mas por uma arquitetura essencial, resistente e profundamente consciente de seu contexto.
Uma arquitetura capaz de operar com menos dependência.
Capaz de proteger sem isolar emocionalmente.
Capaz de conviver com a paisagem sem domesticá-la.
Capaz de permanecer quando tudo o mais falhar.