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Arquitetura

Escola rural no norte argentino

Monte Rico, Formosa, Argentina — 2009

Em grande parte do território rural argentino, a arquitetura ainda depende de sistemas simples, recursos limitados e processos de crescimento imprevisíveis. Longe de entender essa condição como uma carência, este projeto propõe uma arquitetura capaz de adaptar-se ao tempo, ao clima e à disponibilidade real de recursos, construindo uma infraestrutura educacional flexível, autossuficiente e profundamente vinculada à paisagem.

Tipologia Autónoma, Educación, Público, Sustentable
Localização Monte Rico, Formosa, Argentina
Cliente Concurso CEDU - CAYC
Ano 2009
Área Modular min 150 m²

Uma arquitetura nascida do território

Nas regiões rurais do norte argentino, os edifícios costumam compartilhar uma mesma condição essencial. A escola, o posto de saúde, o galpão ou a pequena infraestrutura pública emergem do território com materiais simples, lógicas construtivas locais e uma relação direta com o clima e a disponibilidade de recursos.

Longe de buscar uma imagem icônica ou autônoma, o projeto assume essa tradição como ponto de partida. A cobertura inclinada, as galerias, os espaços intermediários e a ventilação natural são ferramentas projetuais que pertencem ao território antes de pertencerem ao projeto.

A arquitetura se entende aqui como uma continuidade da paisagem produtiva e climática do norte argentino.

Um sistema antes de um objeto

O projeto não foi concebido como um edifício único e fechado, mas como um sistema modular capaz de crescer, se transformar e se adaptar a diferentes contextos geográficos e orçamentários.

Cada módulo pode funcionar de maneira relativamente independente, permitindo diferentes configurações segundo as necessidades de cada comunidade. As salas de aula, pátios, núcleos sanitários e salões de uso múltiplo podem ser combinados, expandidos ou reconfigurados sem alterar a identidade do conjunto.

Essa condição aberta permite que o edifício acompanhe processos reais de crescimento, evitando que a falta inicial de recursos limite futuras expansões.

Mais do que uma forma acabada, a arquitetura propõe uma estrutura evolutiva.

Módulos componentes do sistema

01 Salas de aula

Cada módulo é um recinto educacional independente. É concebido para se adaptar às necessidades de cada escola expandindo-se simplesmente adicionando tantos módulos de salas de aula quanto necessário.

02 Sanitário

Os módulos sanitários incluem dois banheiros e uma sala de máquinas, utilizada para o armazenamento das baterias e o sistema elétrico que alimenta o edifício e a bomba de água, naquelas situações em que o serviço público não está disponível.

O módulo possui ainda sua própria circulação, o que possibilita sua inserção entre salas de aula ou no final delas. Quando localizado ao lado do módulo de pátio, amplia as dimensões deste.

O primeiro módulo instalado deve sempre incluir os geradores elétricos e a bomba de água.

03 Pátio

Pode ser utilizado praticamente em qualquer situação dentro do conjunto. Deve-se ter em conta que os módulos de salas de aula tenham acesso direto a este.

É executado sem apoios intermediários para garantir seu uso contínuo para atividades recreativas. Pode ser combinado com o módulo SUM para aumentar suas dimensões.

04 Salão Multiuso

Localiza-se nas cabeceiras das barras e permite o giro da trama para a montagem de claustros ou semi-claustros conforme o programa. Contém um bloco de cozinha e um espaço de armazenamento, ao mesmo tempo que gera uma circulação independente para os banheiros.

Clima, energia e recursos naturais

A estratégia ambiental do projeto se apoia em sistemas passivos de condicionamento capazes de reduzir ao mínimo a dependência tecnológica.

A ventilação cruzada natural usa a diferença térmica entre galerias e claraboias para gerar correntes de ar constantes durante as estações quentes, enquanto a inércia térmica das paredes de tijolo atua como regulador durante as estações frias.

A iluminação natural também faz parte central da proposta. As salas de aula recebem luz filtrada pelas galerias e luz indireta por claraboias superiores, evitando ofuscamento e construindo uma atmosfera de trabalho confortável e equilibrada.

O conjunto incorpora ainda sistemas de captação de água da chuva, geração eólica e solar, hortas e esquemas básicos de autossuficiência energética e hídrica, entendidos não como soluções tecnológicas complexas, mas como ferramentas educativas e comunitárias.

Climatização natural diurna em salas de aula

O esquema de ventilação cruzada natural do edifício garante a renovação do ar em todas as áreas de uso, ao mesmo tempo que equilibra as temperaturas sob os telhados inclinados.

Durante as estações quentes, as claraboias atuam como grandes chaminés que levam para o exterior o ar quente ascendente, criando assim a corrente de ar fresco necessária para a climatização das áreas de uso.

Durante as estações frias, as janelas se fecham, gerando assim um recinto que se aquece por radiação e condução do calor solar.

Em regiões mais frias, a galeria é fechada com cortinas plásticas enroláveis transparentes, que possibilitam a geração de um sistema passivo de aquecimento tipo “parede Trombe”.

Iluminação natural em salas de aula

A iluminação das salas de aula se efetua por meio de janelas de abrir ou deslizantes (dependendo da região) orientadas para o noroeste, que recebem luz solar indireta filtrada pela galeria coberta.

O esquema de iluminação se completa com um envidraçamento superior orientado para o sudeste, que traz luz na direção oposta às janelas. Isso é muito útil para o trabalho em quadros-negros ou telas, evitando reflexos indesejáveis.

Estas claraboias são executadas inteiramente em chapa corrugada de alumínio galvanizado, o que proporciona maior reflexo de luz para o interior do edifício.

Construir com o disponível

A materialidade do projeto foi pensada a partir de uma lógica de adaptação regional. A estrutura metálica, a alvenaria estrutural e os fechamentos leves podem ser modificados segundo a disponibilidade local de materiais e a capacidade construtiva de cada região.

A arquitetura evita depender de soluções complexas ou tecnologias difíceis de manter. Em vez disso, propõe uma construção racional, simples e durável, capaz de ser executada e mantida com os recursos disponíveis no próprio território.

A flexibilidade material não busca mudar a identidade do projeto, mas garantir sua possibilidade real de construção em territórios diversos.

Uma infraestrutura preparada para mudar

Em territórios atravessados pela incerteza econômica e as transformações sociais, a arquitetura raramente permanece estática.

O projeto assume essa condição desde o início. Sua capacidade de expansão, adaptação e reconfiguração permite que a escola evolua junto com a comunidade que a utiliza.

Mais do que impor uma forma definitiva, a arquitetura estabelece um marco flexível onde o tempo, o uso e a paisagem completam o projeto.

Etapas de construção do edifício

Etapa 1

É composta por dois módulos de salas de aula, um sanitário e um de pátio, que serve de acesso ao edifício e permite atividades sob condições climáticas diversas. Nesta etapa se instalam os geradores elétricos e a bomba de água dentro do módulo sanitário, fornecendo energia e água à instituição sem depender dos serviços públicos.

Novos módulos não necessitarão de sala de máquinas. Nesse caso, o recinto pode ser utilizado como espaço de armazenamento.

Etapa 2

Nesta etapa o módulo SUM é acoplado. Neste tipo de montagem (ver figura), a superfície é aproveitada ao máximo, pois o SUM se expande através do pátio coberto e a área de reunião também se amplia.

Etapa 3

As possibilidades de expansão do edifício são variadas. As combinações de módulos possibilitam que o projeto se adapte a praticamente qualquer programa, local de implantação e contexto geográfico.

“A arquitetura rural não precisa se impor sobre o território.
Precisa aprender a crescer com ele.”

Créditos
ProyectoArq. Elena LeguíaArq. Guillermo Yias
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