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LY Arquitectos

Onde você estará quando o lobo chegar?

O século XXI não lhe tirou a liberdade. Transformou-a em serviço.

O conforto nunca foi gratuito. Foi apenas financiado pela dependência futura.

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Durante décadas, chamamos de progresso a delegação de tudo: água, energia, comida, segurança, memória, moradia. Cada concessão parecia razoável. Cada conforto parecia uma vitória.
Até que nossas vidas inteiras começaram a depender de sistemas gerenciados por outros. O subscrição é a conversão das condições básicas da vida em acesso contínuo e pago, gerenciado e revogável por terceiros. Não é uma abstração econômica: é a arquitetura cotidiana do século XXI.
A casa contemporânea não armazena água: ela espera por ela. Não produz energia: ela a consome. Não protege: ela se autentica contra sistemas que podem ser cancelados. A moradia deixou de ser um refúgio e se tornou um terminal passivo de uma rede.

II

Soberania operacional é a capacidade real de habitar, produzir e decidir sem depender completamente de sistemas externos. Não se trata de isolamento, mas sim de uma margem de escolha. A questão não é se você quer viver desconectado, mas sim quanta parte da sua vida você está disposto a entregar a sistemas que não controla.

Autônomo propõe reabrir essa questão em escala arquitetônica. A casa. A cidadela. A cidade. E antes de qualquer uma delas: o mundo por vir, onde essa questão deixa de ser teórica.

A dependência é sempre apresentada como conforto.

A arquitetura contemporânea está preparada para sustentar a vida?

Durante séculos, a arquitetura foi muito mais do que a produção de edifícios. Foi uma forma de proteção, memória, sustento e liberdade. Uma maneira de organizar a existência humana diante dos elementos, da escassez, do clima, do tempo e dos conflitos.

Hoje, habitamos um mundo tecnicamente extraordinário, mas cada vez mais dependente. Água, energia, alimentos, informação, mobilidade, segurança e grande parte da nossa capacidade de tomada de decisões foram transferidos para sistemas externos que usamos diariamente, mas que raramente compreendemos, controlamos ou podemos substituir.

Em nome do conforto, delegamos capacidade. Em nome da eficiência, aceitamos a fragilidade. Em nome do progresso, aprendemos a consumir mais do que produzimos e a obedecer mais do que pensamos.

Autônoma é uma coletânea de ensaios-manifestos escritos pelo arquiteto Guillermo Yias que explora as consequências arquitetônicas, urbanas e humanas dessa transformação.

Por meio de quatro manifestos — O Mundo Vindouro, A Casa, A Cidadela e A Cidade — a coletânea investiga a relação entre arquitetura, urbanismo, tecnologia, território, dependência e liberdade. Não propõe escapar do mundo nem retornar ao passado. Propõe recuperar a capacidade: de produzir, armazenar, reparar, compreender e decidir. Autônoma questiona a que parte da vida estamos dispostos a continuar renunciando e a que parte devemos começar a recuperar.

Porque o problema não é mais apenas como construiremos o futuro.

O problema é se ainda seremos capazes de sustentá-lo.

O mundo que vem 01

O mundo que vem

Do subscripcionismo à autonomia

Hay una diferencia importante entre no saber y elegir no mirar. Durante décadas construimos ciudades, edificios y modos de vida sobre la convicción tácita de que el sistema continuaría funcionando indefinidamente. Esa convicción no fue el resultado de un análisis — fue el resultado de la comodidad. El sistema funcionaba, y mientras funciona nadie tiene incentivo para preguntarse qué ocurriría si dejara de hacerlo. El incentivo aparece, siempre, demasiado tarde. Y cuando aparece, los edificios ya están construidos. Las ciudades ya tienen su forma. Las dependencias ya están incorporadas en el concreto, en los caños, en los metros cuadrados que no producen nada y no pueden sostenerse solos.

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A casa 02

A casa

Onde você vai estar quando o lobo chegar?

Há uma advertência que a cultura guardou em sua forma mais simples e que a arquitetura preferiu esquecer: o conto dos três porquinhos. Não é um conto sobre a preguiça. É um conto sobre a previsão, sobre o custo de construir bem e o preço de construir rápido. Dois irmãos escolheram a comodidade imediata. Um escolheu o trabalho lento da pedra. Quando chegou o lobo —e no conto o lobo sempre chega— apenas uma casa ficou de pé. A pergunta que o conto faz a cada geração é incômoda e concreta: onde você vai estar quando o lobo chegar?

O lobo contemporâneo não sopra. Tem a forma de uma rede elétrica que colapsa em pleno inverno, como ocorreu no Texas em 2021, quando milhões de lares ficaram sem aquecimento durante dias e houve mortos de frio em suas próprias casas. Tem a forma de uma cadeia de suprimentos que se interrompe e esvazia as prateleiras em setenta e duas horas. Tem a forma de um sistema de água que se contamina, de um apagão que dura, de um preço que dispara, de uma crise que chega sem pedir permissão. O lobo é qualquer interrupção do fluxo do qual dependemos sem nunca tê-lo decidido conscientemente. E a casa contemporânea, essa que aplaudimos por transparente e conectada, é exatamente a casa de palha: cai com o primeiro sopro sério.

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A cidadela 03

A cidadela

Nós, humanos, amamos odiar

O que Roma deixou como advertência, o presente está repetindo sem reconhecê-lo. A institucionalidade que durante décadas conteve esse impulso mostra sinais de fratura que nenhuma análise honesta pode ignorar: o número de países que retrocedem em desempenho democrático supera o dos que avançam há anos, o contrato político se erode, as corporações tecnológicas substituem o Estado na adesão cotidiana dos cidadãos. E o que vem pode acelerar essa degradação de maneiras que nenhuma instituição está preparada para absorver. O emprego em massa vai mudar de natureza mais rápido do que os sistemas de proteção social conseguem acompanhar. A mudança climática vai pressionar territórios, recursos e fronteiras. Os deslocamentos serão simultâneos. Quando milhões perdem seu lugar no sistema sem rede de contenção, a história demonstra com consistência o que ocorre: buscam um alvo, algo ou alguém sobre o qual dirigir a energia que o sistema já não pode canalizar. Nesse contexto, uma Cidadela funcional —com água, energia, alimento, comunidade, ordem— não é invisível por padrão: é exatamente o que chama a atenção de quem não tem nada. Não por maldade abstrata. Pela mesma lógica biológica que encheu o Coliseu: o grupo sem freio busca o que o outro tem.

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A cidade 04

A cidade

A cidade amplifica tudo.

Vista do ar, a cidade mostra sua verdadeira natureza.

Desde um satélite, uma cidade como São Paulo ou Buenos Aires é uma mancha. Não uma forma projetada nem uma ordem geométrica: uma mancha orgânica que se estende sobre a superfície da terra de maneira inesgotável. Um tecido de asfalto, concreto e metal que avança colonizando o que encontra: natureza, solo fértil, cursos de água, campos, florestas. Vai cobrindo tudo. Vai trocando tudo por seu próprio material. A imagem desde o ar tem algo de inquietante e de revelador: a cidade tem forma de organismo invasor. Expande-se sem limite. Consome os recursos de seu entorno. Transforma o que toca em mais de si mesma. Cresce seguindo suas próprias vias de comunicação como os braços de uma entidade amorfa: ao longo das rotas, ao redor das estações ferroviárias, nos cruzamentos onde o movimento se concentra. Onde há fluxo, há cidade. Onde há cidade, há mais cidade.

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Projetos de referência

Autónoma em projetos

Projetos experimentais e conceituais onde as ideias de Autónoma tomam forma: exercícios de design que ensaiam a autonomia, a soberania operacional e novas formas de habitar antes da construção.

Ferramenta aberta

Índice de Soberania Operacional

Um manifesto também pode ser uma ferramenta. Escolha qualquer ponto do planeta e o aplicativo cruza seu clima real —radiação solar, chuva, temperatura e vento medidos por satélite— com seu programa, para estimar que grau de autonomia energética, hídrica e alimentar é alcançável ali.

Não promete certezas: cada número indica sua fonte. É a ideia de Autónoma transformada em instrumento, aberta a qualquer um que queira pensar como habitar com menos dependência.

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Energia · Água · Alimento · Riscos Dados: NASA POWER · USGS

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